O bar, uma coleção de garrafas ao lado do barco

 

TODOS

Eu talvez eu não sei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
― que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?

Não cresci, não cresci, segui morrendo?

Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.

Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos
e onde eu estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.

Porque buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?

Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo mundo.

Pablo Neruda in Últimos poemas
(O Mar e os Sinos) - 1973

 

Porém a vida e os livros, as viagens
e a guerra, a bondade e a crueldade,
a amizade e a ameaça, fizeram cambiar
cem vezes o traje de minha poesia.
Me tocou viver em todas as distâncias
e em todos os climas, me tocou padecer
e amar como um homem qualquer de
nosso tempo, amar e defender causas
profundas, padecer as dores minhas
e a condição humilhada dos povos.

Pablo Neruda
em "La poesia es insurreccional..."

 

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