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Quantos já passaram hoje por aqui? – pergunto enquanto bebo, num copo pintado com a marca da
cerveja Quilmes, a maravilhosa água da cordilheira que sai pela
torneira.
– Você é o primeiro – ele responde sem muita importância.
Aí
fico gelado e tomo o último gole d’água do degelo, no copo.
Pego
os documentos enquanto ele me avisa que a aduana chilena está
próxima e que no outro lado a estrada está bem melhor. Nestes
lugares, para eles tudo é considerado próximo.
Poucos
quilômetros rodados por muitas curvas e riachos, já estou
quase no topo do passo El Planchón, a divisa entre Argentina e
Chile, a mais de 2.900 metros de altitude, e repentinamente me
deparo com a mais linda imagem que já vi na cordilheira: uma
montanha nevada, muito próximo à estrada, em que o vento joga
fragmentos de neve sobre o sol como fina areia branca, num
contraste com o límpido céu azul. Entre a estrada e a
montanha, muitas florezinhas lilás dando um visual maravilhoso
na quietude do lugar, quebrado apenas por algumas fracas rajadas
de vento. Mais à direita, junto a uma extensa relva verde, um córrego
e uma pequena queda da límpida água do degelo.
Não
resisto a esse encantamento e bato uma foto com a moto no centro
do visor, como prova para mim mesmo de tudo aquilo ser
verdadeiro e eu ter a certeza futura de que não foi um sonho,
de que eu estive ali e vivi aquele instante. A tentativa de
registrar um instante que uma foto não consegue captar, a
tridimensionalidade e a magia do lugar, o som da manifestação
dos Deuses da Natureza, os Deuses que habitam a Cordilheira dos
Andes. Parece que o mundo se abre aqui no cume da montanha e
vivencio o sublime.
Organizo-me sempre para chegar a estes lugares, a
estes níveis de consciência, estes encontros com a realização
de meus sonhos, da veneração destes Mistérios, sinto que
existe uma mensagem a decifrar, sinto-me conectado a uma fonte
originante, acho que é minha religião maior. Isso tudo me
fascina, me enche tanque,
pois já rodei alguns quilômetros na reserva. Sigo em frente.
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