Cruzando os Andes

pelo passo El Planchón

 

 

(de Malargue, Argentina, a Curicó, Chile)

 

 

                                              

                                          Chardô

  

 

 

Cruzando os Andes pelo passo El Planchón

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Cruzando os Andes pelo passo El Planchón

(de Malargue, Argentina, a Curicó, Chile)

 

           Pela manhã, novamente tenho uma leve dor de barriga, mas agora sei que é pela ansiedade e preocupação em atravessar os Andes por este novo passo de Pehuenche.

Desço para o café da manhã do hotel com metade da bagagem, pois é impossível carregar tudo de uma só vez.

Na mesa ao lado, três homens e uma mulher conversam baixinho e me observam, todos bem arrumados. A mulher com um vestido parecendo que saiu naquele instante da costureira, pois a costura ainda não tinha sido passada, ainda apresenta bordas arredondadas, enquanto os homens bem barbeados, de paletó e gravata.

Sinto que o assunto é o barbudo todo de couro, suas tralhas e sua moto. Estão todos rindo e parece que falam em me transformar em um vendedor, cortando o cabelo, a barba, tirando os brincos e me vestindo um paletó e uma gravata de seda. Eu já penso em convidá-los para atravessar os Andes de moto por um passo de terra. Na metade do caminho já estariam querendo roupas de couro e pretendendo não mais desperdiçar tempo em fazer a barba diariamente. Realmente não daria certo, cada macaco no seu galho.

Para quem cruza os Andes por essa região, o último abastecimento é em Malargue, Argentina, depois só em Talca, já no território chileno, distante 320km.

Abasteço a moto e os camburões, anoto todos os dados, como sempre faço, para acompanhar o rendimento do motor e como base no planejamento de abastecimentos, porque, sozinho, não pode haver falha neste item.

Coloco as luvas e me desejo boa sorte no dia, pois será uma etapa difícil e cansativa, embora de grande beleza natural.

 

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Entro na ruta 40 e vou para o sul em direção a Bardas Brancas, que dista 66km. Exatos 20km rodados acaba o asfalto e começa um rípio com muitos buracos e lombadas.

Em Bardas Brancas, junto a uma ponte sobre uma forte correnteza de água que vem da cordilheira, uma placa indica, à direita, o Corredor Pehuenche.

Já na entrada, com menos de 300 metros rodados desde a ruta 40, encontro muitas cabras que fecham todo o caminho. Paro, desço da moto e fotografo o rebanho que se desloca e os três cavaleiros que as conduzem. Cumprimento-os e converso com um deles, Luciano. Informa-me que estão levando as cabras para engorda de verão na cordilheira, pois geralmente estes passos acompanham os vales verdes junto aos rios que são abastecidos por arroios e vertentes.

Tiro uma foto de Luciano e seus companheiros, já bastante empoeirados em seus cavalos. Ele me pede para enviá-la pelo correio. Consigo papel e caneta na moto para Luciano Villallovos anotar com mãos grossas e calejadas sua caixa postal em Bardas Brancas. A mão esquerda segura as rédeas e firma o papel na sela do cavalo para anotar com seus dedos grossos da mão direita, mal conseguindo fechá-los para prender a caneta. Luciano fica mais contente ainda quando ofereço a ele e seus amigos uma bala de café, do Brasil. Deseja-me sorte na despedida.

– Obrigado, vou precisar mesmo – respondo enquanto subo na moto.

Alguns caminhões transitando também, carregados de brita; muitos desvios e máquinas que deslocam terra e preparam o leito da estrada que vai sempre paralela ao leito do rio. Em alguns trechos não consigo definir por onde devo passar, pois estão liberados e na sua continuação, mais à frente, obstruídos, sendo difícil pegar a outra opção de caminho devido ao amontoado contínuo de brita solta que fica nas bordas. Em outros trechos de estrada ainda falta muito aterro para chegar ao nível projetado, profundos que descem, passando por dentro de grandes buracos e retornam à superfície, na altura em que deverá ficar a via.

 

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A brita solta recém-largada pelos caminhões e espalhada pela máquina dificulta a pilotagem da moto. “Se não tivessem feito nada, estaria muito melhor para rodar”, penso, mas é uma etapa necessária para a construção do leito da estrada que tem projeto de asfaltamento até a fronteira pelo passo de Pehuenche, e que neste trecho vai costeando o rio formado pela límpida água do degelo da cordilheira que deságua para leste.

Quase 15km percorridos e a estrada começa a ficar natural, com pouco rípio e sem a poeira levantada pelo movimento das máquinas e dos caminhões, melhorando assim as condições de pilotagem, permitindo maiores acelerações. Mais à frente, uma cancela, com uma casa ao lado, junto a grandes árvores, interrompe o caminho, e uma placa avisa: “Pare”. Acima, presa ao pórtico metálico que envolve a cancela, outra placa: “Gendarmeria Nacional – Escuadrón 29 – Malargue”.

Apresento a documentação e o militar me informa que o passo de Pehuenche está fechado no lado chileno, e que devo pegar o caminho à direita, uns 100 metros antes da aduana que está a uns 24km à frente, mas claro que devo primeiro passar na aduana em Las Loicas e seguir pela estrada que leva ao passo El Planchón.

Em Malargue tinham também me avisado que o passo El Planchón, seguindo por Las Lenhas, famosa estação de esqui, estava interrompido no lado argentino, já há bastante tempo. Eu tinha feito o planejamento da viagem por um mapa que não era tão antigo, do ano de 2000, e que indicava a passagem perfeita por este passo.

Com a confirmação em Malargue, à noite fiz um novo planejamento para pegar o passo de Pehuenche que estaria aberto. Agora me informam que devo ir até El Planchón, mas por uma estrada que une os dois passos em território argentino, que não existe nem em mapas, e que passa pelas Termas El Azufre.

Anoto as distâncias fornecidas pelo militar e calculo para ver se tenho gasolina suficiente para o trajeto, já que usarei muitas marchas reduzidas e o consumo deverá aumentar. A distância aumentou com esse novo roteiro, pois chegarei no Chile pela

 

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 cidade de Curicó, mais ao norte, em vez de Talca como estava previsto.

O militar não se dá ao trabalho de abrir a cancela, e autoriza passar com a moto por um local aberto para pedestres.

Rodo mais tranqüilo agora, porque depois de tantas mudanças de roteiro este deve ser o definitivo para entrar no Chile.

Em alguns lugares, paro e bato algumas fotos. A seguir, uma placa: Las Loicas, e lá vão “los loicos”: eu, a moto e o tripé fotográfico.

No povoado de Las Loicas está a aduana que o militar havia me falado, uma grande casa de pedra com telhado vermelho junto a grandes árvores, onde devo fazer os trâmites de saída do país. O funcionário responsável pelo preenchimento e assinatura dos papéis não está presente, então aguardo uns 20 minutos, mas quando ele chega é rápido e me libera. Ainda na saída me avisa que a uns 30km à frente irei passar por uma extensão aproximada de 1km de areia vulcânica.

O sol está forte e o céu sem nuvens, o capacete apoiado no retrovisor da moto está bem quente, quase torrando, assim como o banco que ficou ao sol próximo à entrada da casa, longe da sombra das árvores.

Seguindo em frente vai-se ao passo de Pehuenche, mas existe uma cancela e o passo está fechado, provavelmente mais um ou dois anos e estará todo asfaltado, aí muitas pessoas conhecerão e desfrutarão suas belezas com todo conforto e segurança, pena que isso causará alguns danos a natureza.

Retorno poucos metros e pego a estrada que leva a El Planchón. Uma placa indica 100km para Banhos Del Azufre.

Não existem sinais de tráfego de carros, apenas marcas de pneus de algum caminhão que passou recentemente, talvez do tipo militar, pois é bem visível a marca dos gomos e a maior distância dos eixos.

Uma derivação no caminho, uma estrada mais estreita que segue para a esquerda em que marcas de pneus seguem por ela e outra mais larga que segue quase reto. Na estrada mais larga que

 

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continua paralela à margem do rio, e que suponho seja a continuação, não existem mais marcas de pneus. Continuo avançando por esta estrada larga. Mais uns três quilômetros e começo a ficar preocupado se não estou no caminho errado. A terra é bem árida, uma vaca morta já em estado de decomposição aparece no lado esquerdo, penso em fotografar para mostrar a secura do lugar, mas decido continuar e resolver primeiro esse detalhe do caminho para ter certeza de que estou no caminho correto. Avanço mais um pouco na esperança de encontrar alguma evidência de estar na estrada certa. Na frente vejo muita poeira no ar. Agora, mais próximo, vejo que é um rebanho de cabras que avança no mesmo sentido que rodo, com alguns cavaleiros conduzindo o enorme rebanho. Respiro aliviado, pois as cabras vinham apagando os vestígios dos pneus na terra com seu pisoteio e dando a nítida impressão de que ali não transitava nada há muito tempo. Paro e fotografo, peço a um dos cavaleiros que tire uma foto minha junto ao rebanho. O rapaz montado a cavalo fica impressionado ao ver a imagem digital de seu cachorro na máquina. Pergunto sobre a distância até as Termas El Azufre. Ele aponta para uma grande montanha nevada distante e me fala que fica ali atrás. Ele diz ali pelo tamanho da montanha atrás de muitas outras menores, mas o ali dele, para mim é lá, e muito distante.

Mais à frente, quase junto, outro rebanho de cabras se espalha pelo leito de um pequeno rio que corta perpendicularmente a estrada, sendo orientadas pelo assobio do cavaleiro que tem dificuldades em fazer com que as outras cabras atinem a cruzar sobre uma pequena ponte de tábuas na continuação da estrada. Avanço mais lentamente para as cabras irem se afastando.

“A mancha branca de areia vulcânica deve estar próxima”, penso. “O funcionário da aduana me falou em 30km, já rodei 34km.”

Agora vejo a montanha em que o vento bate e joga areia sobre a estrada, uma areia que se desprende como talco e avança encobrindo o caminho. Não acho que seja tão extensa como havia alertado o funcionário da aduana, talvez menos da metade.

 

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 Passo lentamente, mas vou acelerando conforme percebo o bom comportamento da DR650 nestas condições de terreno. Porém, depois de um pequeno trecho de estrada mais firme, há uma grande extensão de areia vulcânica à frente e acelero sem dó, a moto avança espetacularmente mesmo bem carregada. Na seqüência, os trechos de areia são mais intermitentes e pequenos, a pista parece que fica mais larga e segue sempre acompanhando o leito do rio.

Estou preocupado, pois não há sinais de que a estrada comece a subir a cordilheira e já rodei bastante.

Uma grande reta cercada por montanhas e o vento forte assobia em contato com a moto. Paro e faço uma pequena filmagem com a máquina digital, para tentar captar essa inóspita e árida região.

As montanhas com gelo agora parecem mais próximas, e a estrada começa a ficar estreita e a subir. Há um grande monte de rípio no lado esquerdo, parece que quebraram a pedra lá em cima ou foram descarregando montanha abaixo, pois é muita altura para que qualquer máquina possa ter empilhado as pedras. Essas pedras com cortes afiados facilmente cortariam pneus, se já não estivessem socadas no leito da estrada. Já no lado direito existe um barranco com um declive que assusta em caso de algum erro de manobra, e se eu despencasse por ali não conseguiria subir mais, tais são a altura e a inclinação escarpada feitas com as mesmas pedras.

Até agora ninguém passou por mim, nem cruzei com nenhum veículo. Algumas subidas mais fortes e vejo pequenas cachoeiras que em contato com a montanha ficam brancas pelo gelo formado, parecendo espuma que desce da cordilheira, juntado-se lá embaixo no rio.

Segue uma extensão muito plana, certamente alguma máquina de terraplanagem passou por aqui, e as mesmas marcas dos pneus que eu havia percebido logo depois da aduana. No centro a terra ainda está fofa, em outros trechos em forma de barro produzido pelo contato da água que desce montanha, condição ruim de pilotagem.

 

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Distante vejo uma máquina amarela que avança e bem ao fundo uma casa à beira da montanha nevada.

Procuro andar sobre as marcas de pneus da máquina niveladora, pois é onde a terra está mais compactada e a moto não dança tanto.

Já perto, o patrolista pára a máquina; tento chegar mais próximo e desligo a moto. Ele desce para falar comigo, pois na distância não é possível nos entendermos devido ao barulho do motor da patrola. Pergunto a ele quanto falta para atingir o passo El Planchón, a fronteira com o Chile. Ele me informa que está próximo e que devo pegar o trecho à direita, um pouco antes da casa junto à montanha nevada, a qual ele aponta, onde ficam as Termas de Azufre, local também já patrolado. Ofereço uma bala de café, ele agradece e sigo em frente.

Resolvo ir até a casa com telhado de zinco enferrujado à beira da montanha nevada, onde existe uma pequena bandeira da Argentina hasteada, tremulando ao vento. Sentados estão dois homens que me cumprimentam e me dão a informação de que ali é a estação de banhos termais de Azufre. Dá para perceber, pois existe um forte cheiro de enxofre pairando no ar. Um deles aponta para as banheiras feitas de cimento, mais à frente ao lado da montanha, onde são represadas as águas quentes que surgem do contato com o vulcão Peteroa, e onde são tomados os banhos pelo preço de 10 pesos a diária.

Abriram há dois dias esta estação de banhos, porque a temporada começa na segunda quinzena de dezembro e em abril eles têm que se retirar do local, pois a neve tapa tudo.

Seria interessante um banho termal, mas se estivesse próximo de algum lugar para pernoitar, pois relaxaria bastante, mas já é quase 4 horas da tarde e tenho ainda muita estrada até Curicó e relaxar nesse momento da viagem não seria uma condição segura.

Tiro mais umas fotos, bebo a água que desce da montanha e molho a cabeça. Transfiro o combustível das bombonas para o tanque, pois já rodei alguns quilômetros na reserva. Sigo em frente.

 

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Percebo que perdi o tampão do tubo de PVC onde levo as câmaras de pneu, alguns reparos, arame, funil para transferir a gasolina das bombonas para o tanque e o manete reserva de embreagem. Só ficaram as câmaras, o resto saltou fora.

Resolvo voltar uns três quilômetros, não mais porque posso ficar sem gasolina. Ouvi um barulho de metal em contato com a moto um pouco antes de falar com o patrolista, deve ter sido o manete quando caiu, portanto deve estar próximo. Lembro que passei forte sobre muitos córregos que cortam a estrada e num deles pode ter saltado a tampa do tubo fixado na parte de baixo do protetor de tanque.

“A patrola deve ter tapado e nunca mais acharei” – imagino. Desisto e retorno, seguindo em frente.

Agora riachos mais extensos me assustam, um bem largo e com grandes pedras redondas, próximo a uma casa que parece ser a última gendarmeria.

Paro, observo e acelero forte e firme. A moto carregada avança maravilhosamente como se estivesse tocando somente na borda superior de cada pedra, causando pouca oscilação. Estou cada vez mais maravilhado com esta bela trail DR650cc.

A casa não tem muito jeito de aduana, mas o caminhão militar ao lado e a bandeira hasteada não deixam dúvida. A cordilheira nevada ao fundo dá um belo visual com o sol da meia tarde.

Bato na porta e aparece um militar. Recebe-me bem, apresento os papéis e ele me pergunta:

– Meus amigos lá embaixo me mandaram algum jornal?

Percebo que ele deve estar um tanto isolado neste lugar.

– Infelizmente não me deram nada para trazer – respondo.

Por uma porta interna entreaberta vejo uma pia com copos apoiados, uma espécie de cozinha sem panelas, somente um pequeno armário num canto. Peço permissão para pegar um pouco de água.

 

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– Quantos já passaram hoje por aqui? pergunto enquanto bebo, num copo pintado com a marca da cerveja Quilmes, a maravilhosa água da cordilheira que sai pela torneira.

– Você é o primeiro ele responde sem muita importância.

Aí fico gelado e tomo o último gole d’água do degelo, no copo.

Pego os documentos enquanto ele me avisa que a aduana chilena está próxima e que no outro lado a estrada está bem melhor. Nestes lugares, para eles tudo é considerado próximo.

Poucos quilômetros rodados por muitas curvas e riachos, já estou quase no topo do passo El Planchón, a divisa entre Argentina e Chile, a mais de 2.900 metros de altitude, e repentinamente me deparo com a mais linda imagem que já vi na cordilheira: uma montanha nevada, muito próximo à estrada, em que o vento joga fragmentos de neve sobre o sol como fina areia branca, num contraste com o límpido céu azul. Entre a estrada e a montanha, muitas florezinhas lilás dando um visual maravilhoso na quietude do lugar, quebrado apenas por algumas fracas rajadas de vento. Mais à direita, junto a uma extensa relva verde, um córrego e uma pequena queda da límpida água do degelo.

Não resisto a esse encantamento e bato uma foto com a moto no centro do visor, como prova para mim mesmo de tudo aquilo ser verdadeiro e eu ter a certeza futura de que não foi um sonho, de que eu estive ali e vivi aquele instante. A tentativa de registrar um instante que uma foto não consegue captar, a tridimensionalidade e a magia do lugar, o som da manifestação dos Deuses da Natureza, os Deuses que habitam a Cordilheira dos Andes. Parece que o mundo se abre aqui no cume da montanha e vivencio o sublime.

Organizo-me sempre para chegar a estes lugares, a estes níveis de consciência, estes encontros com a realização de meus sonhos, da veneração destes Mistérios, sinto que existe uma mensagem a decifrar, sinto-me conectado a uma fonte originante, acho que é minha religião maior. Isso tudo me fascina, me enche de energia, de entusiasmo, de esperança e me dá a certeza de estar no lugar certo.

 

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Só por este instante, todo o esforço de chegar aqui, todo o investimento e planejamento já teria valido a viagem, poderia voltar tranqüilo e recompensado. Talvez porque rodo em busca destes momentos mágicos, e que nunca conseguirei expressar com simples palavras ou imagens fotográficas ou tampouco em filmes, é que me explica esse firme propósito de andar por estes lugares inóspitos.

O que escrevi no meu livro Machu Picchu: “Mais importante que o objetivo final de uma viagem é o caminho, pois é ele que nos ensina enquanto o cruzamos” , atesta totalmente este instante.

Continuo quase que em estado de torpor, mas atento às condições do terreno, obstáculos, buracos e pedras.

Mais uma curva e surge uma planície como um campo de futebol, rodeada de montanhas geladas bem próximas com um bloco de concreto no centro, um marco. Dou um berro dentro do capacete por ter alcançado o topo do passo El Planchón, 2.938 metros de altitude.

No marco em forma de um pequeno obelisco, porém sem ponta, tem afixada na lateral uma placa com a inscrição: “Expedición de Reconocimiento – Ruta Sanmartiniana – PASO EL PLANCHÓN – Centro de estudios e investigaciones Gral. José de San Martín – 1ª Expedición Ecuestre – Malargue, Mendoza – Febrero de 2002.”

O marco é recente e pela precariedade da estrada pode dar a idéia de que o passo foi aberto há pouco tempo, mas em 1817 o tenente coronel D. Ramón Freire Serrano, com 80 infantes e 25 granadeiros pertencentes ao exército de Los Andes, recebeu a incumbência do Gen. José San Martin – militar e político argentino que no século XIX comandou a independência da Argentina, Chile e Peru – para cruzar a cordilheira dos Andes por este passo e tomar a cidade de Talca no Chile. Posteriormente venceu em Chacabuco na batalha de mesmo nome e que foi decisiva na emancipação chilena face ao domínio espanhol.

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Para traçarmos um paralelo com o Brasil, neste ano estava ocorrendo a Revolução Republicana Pernambucana de 1817, que foi a grande insurreição no Nordeste, conflito entre nativistas e portugueses. Foi uma insurreição que tomou o que hoje ocupam os Estados de Pernambuco, Paraíba, Sergipe, Rio Grande do Norte e Ceará.

Armo o tripé da máquina fotográfica e preparo uma foto automática. Correndo para cima do marco de concreto, levanto os braços olhando para a máquina e a luz vermelha em seguida pára de piscar. Confiro a foto que ficou excelente, aparecendo também a moto ao lado e as montanhas nevadas ao fundo.

Tenho uma atenção especial com essas fotos de viagens, pois é um ótimo material para atualizar meu site da internet, possibilitando a muitos outros motociclistas terem uma idéia do local para futuras viagens. E uma imagem fala mais que mil palavras.

Aqui em cima também acontecem os terríveis contrastes causados pela mão do homem e que nos deixam tristes e preocupados. No outro lado da estrada que divide a área no topo existe uma pequena capela onde cabem apenas a imagem de uma santa e dois pequenos vasos. Mais ao lado, um monte considerável de garrafas plásticas, papéis, latas e muitos sacos plásticos. Pelo menos alguém se deu ao trabalho de juntar tudo aquilo em um canto. Lixo abandonado por fiéis da santa e infiéis à natureza que sofre sem reclamar de imediato – uma provável festa religiosa conseguiu profanar a mãe de todas as mães, a nossa terra. É a mão humana que insiste em destruir a mãe natureza. Infelizmente, uma cena triste a poucos minutos de uma visão de encantamento, talvez uma maneira de reclamar e mostrar com este forte contraste, a quem ali passar, do descaso do homem com a nossa terra.

Aqui em cima, já no lado chileno, uma máquina também abriu trechos de estradas que estavam intransitáveis, num deles cortou recentemente um pedaço de montanha com gelo e tudo, ficando uma enorme e espessa placa fatiada de gelo, de cada lado do caminho.

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 Paro justamente no meio e fico imaginando um possível deslocamento por desprendimento daquela enorme placa inclinada sobre a estrada. Seria quase impossível, mas é bom nem pensar. Pressiono a mão aberta no gelo, deixando a marca impressa na cordilheira gelada.

Tiro outra foto rapidamente da moto na estrada entre as placas de gelo e sigo em frente com a esperança de uma estrada melhor, mas o que tenho é uma descida constante e estrada bem estreita, com um rio bem abaixo entre as montanhas, não dando a chance de contemplar muito a paisagem, pois é preciso prestar atenção na pilotagem da moto.

Algumas vezes paro e fotografo, e então posso me deliciar com o visual.

Cruzo uma ponte sobre forte correnteza de água que bate em enormes pedras do lado esquerdo e desce para a minha direita, a norte, onde vejo distante uma casa à beira da estrada que passa junto à montanha, lá embaixo, e bem distante ao fundo, entre outras duas montanhas, a cordilheira nevada. Como num cartão postal, o magnífico contraste entre o verde de alguns trechos de montanhas, a terra, o branco do gelo e o azul anil do céu límpido é impossível de descrever, mas fácil de sentir. Uma verdadeira pintura num quadro tridimensional.

Penso ser a aduana chilena, mas quando chego encontro uma grande casa com telhado de zinco enferrujado, piso de terra e portas abertas, buzino várias vezes, mas pela demora, não deve existir ninguém nem no banheiro. Sigo em frente.

O terreno bem acidentado, com a estrada estreita, continua sempre descendo; o sol já está mais baixo, causando uma grande sombra entre as montanhas.

Sigo descendo pela estrada estreita. Sobre uma grande pedra um mastro e a bandeira chilena hasteada, certamente é aqui. Está ali a cancela de tubos de ferro interrompendo o caminho.

O militar me recebe muito bem, mas quer o papel fornecido na Argentina para conduzir a moto.

Explico que com o acordo do Mercosul, na Argentina e no Uruguai não é necessário este papel, pois o próprio certificado de propriedade do veículo no nome do condutor é suficiente.

 

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 Ele diz saber disso. Então eu não entendo por que ele exige tal documento. Logo fica por isso mesmo e ele me fornece um papel tamanho oficio, em 2 vias, para conduzir a moto em seu país, que no Chile continua sendo obrigatório. Carimba meu passaporte e me pergunta se não estou levando alimentos na bagagem ou alguma coisa que me comprometa. Digo a ele que apesar desse meu visual meio hippie não uso drogas e carrego apenas balas.

Ele pega uma bala de revólver do seu cinto e me pergunta:

– Igual a essa?

– Claro que não – respondo rindo –, são balas de café.

Agora, com os milicos mais tranqüilos, ofereço balas de café aos quatro homens de plantão.

Peço autorização para bater uma foto e todos saem correndo quando puxo a máquina digital. Pergunto ao “comandante” do local, já mais amigo, sobre a fuga repentina da tropa. Ele me explica que eles não podem aparecer em fotos sem o quepe. Um deles volta com o boné e fica ao meu lado junto à moto, enquanto o comandante chupando bala tira uma foto com a máquina, e que lhe impressiona. Ao me devolver, me recomenda:

– Tome cuidado em Curicó, porque você pode ser roubado e ficar sem esta máquina.

O caminho continua péssimo, mas, após uns quatro quilômetros, entro numa ótima estrada, apesar do pó, bem ripiada, mas bem compactada, bem sinalizada, plana e pronta para receber o asfalto que provavelmente não chegará tão cedo.

Sempre descendo também acompanhado pelo rio, agora mais caudaloso, que desce no lado direito no sentido oeste e onde em alguns lugares varas de pescar são balançadas por pescadores de trutas chilenos.

Quando o “comandante” na aduana me falou que poderia acelerar a 80, 100, 120km por hora, achei que ele estava brincando, mas agora vejo que ele falava a verdade, pois já estou a 100km/h, apesar das leves dançadas na traseira da moto devido ao rípio.

 

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Nos trechos em que as águas atravessam a pista e deságuam no rio ao lado, foram construídas rasas canaletas de concreto, permitindo a passagem dos veículos sobre a água. Nestes trechos tenho que reduzir bastante a velocidade, gradativamente, algumas vezes mais bruscamente quando vejo que já estou em cima da água.

Num destes córregos resolvo parar para tirar o pó do macacão e de todo o corpo, pois se chegar assim em algum hotel, talvez não me recebam ou cobrem bem caro para eu desistir de sujar o ambiente.

Agora tranqüilo, resolvo fazer uma foto me lavando e tirando o pó neste córrego. Armo o tripé e a foto automática, e, quando retorno rapidamente à água para ser fotografado, ouço um barulho, me viro e vejo a máquina fotográfica no chão. Uma rajada de vento derrubou o tripé com a máquina. Volto correndo, jogando a jaqueta na moto, e pego a máquina digital, que travou. Sinto alguma coisa errada no ar e fico aborrecido.

Guardo a máquina e volto ao córrego para continuar a limpeza. Jogo água no macacão de couro e botas, chega a formar um barro de tanto pó, tenho que lavar mais e passar um pano. Sinto a jaqueta mais pesada, pois absorveu água, mas com todo este calor e baixa umidade em seguida estará seca.

Uma pickup vermelha, cabine dupla, lotada, pára ao lado, e homem de trás abaixa o vidro e me pergunta se está tudo bem e para onde eu estou indo. Vendo a bandeira do Brasil no bauleto, imaginou que a moto tivesse algum problema, afinal é muita distância para uma pequena motinho. Bem que eu gostaria de dizer que não está tudo bem nada, minha máquina foi ao chão, tenho que comprar filmes e usar a velha máquina Olimpus de muitas viagens. Mas respondo que estou aproveitando a gostosa água e vou pernoitar em Curicó. Ele me recomenda entrar à direita mais abaixo, pois é a continuação desta pista. Embora saindo na Pan-americana uns 10km ao norte de Curicó, seria vantajoso, pois seguindo reto pela estrada que leva direto à cidade eu pegaria muitos buracos e demandaria mais tempo. Ele pede para acompanhá-los, explicando que assim eu não me perderia. Eu agradeço.

 

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Seguindo atrás dele, teria que conseguir um grande córrego ou uma cascata para tirar todo o pó quando chegasse na Pan-americana.

Continuo descendo e o pó levantado pela pickup em alguns trechos ainda não sentou, então diminuo a velocidade.

Em seguida entro no asfalto, passo por Los Queñes e Romeral.

Muitas casas na beira da rodovia, emaranhados de fios elétricos em postes, cachorros, bicicletas, carros velhos e pessoas cruzando. E para não ser diferente aqui, resolvo conversar e sentir o humor das pessoas do local.

Poderia ter perguntado alguma coisa ao rapaz na bicicleta, mas desisto e aproveito a proximidade das duas senhoras que conversam na beira da faixa.

Uma delas bem arrumada, vestido floreado e exalando perfume agradável, parecendo estar esperando o ônibus. A outra com avental branco e cheirando a tempero de comida, parecendo conversar rápido, enquanto o ônibus não chega, sobre algum ocorrido na vizinhança, tipo: “Vizinha, você viu o que o marido da Mercedes fez?”, ou, “Nem te conto, ontem à noite a filha da Maria brigou com o namorado e fugiu com o marido da Conceição”.

– As senhoras sabem me informar se falta muito para Curicó? – pergunto com a moto ao lado das duas, depois de levantar a parte frontal do capacete.

– Já está próximo, no final desta rua o senhor entra à direita e pega a faixa que cruza – responde a senhora de avental, desviando os olhos para a bandeira no bauleto e retornando o olhar para a sua amiga, como que pedindo uma confirmação.

– Não, o senhor dobra à esquerda, sobe pelo viaduto que passa sobre a faixa e dobra à direita, saindo na pista que vai a Curicó – corrige a senhora perfumada, no que a do avental concorda imediatamente, como quem diz: “Vai logo, porque senão o ônibus chega e eu não consigo concluir toda a fofoca do dia”.

Se tivesse GPS não teria sentido esse perfume chileno.

 

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Realmente a senhora perfumada estava certa, já estou no trevo junto à ruta 5, a famosa Pan-americana, entrando na pista rumo ao sul, onde encontro um grande posto de combustível.

O frentista me ajuda a conseguir uma mangueira, que já está com água aberta molhando o gramado, para eu tirar o pó da moto e lavar a corrente, porque lubrificar neste estado é o mesmo que colocar uma massa abrasiva sobre os elos.

Ainda estou sem moeda chilena para as despesas, mas o posto aceita cartão de crédito, com o qual pago o combustível, o cachorro-quente e o suco de laranja.

Sento a uma mesa na parte externa da lancheria para fazer o lanche e contemplo a cordilheira longe que constantemente é escondida por caminhões que passam na rodovia Pan-americana em frente. É bem gratificante também contemplar a cordilheira daqui, com todo o conforto e, sabendo que estive lá, é uma sensação muito gostosa.

Pego a máquina fotográfica para verificar o estrago, ligo e no visor digital aparece apenas a imagem num estreito traço em diagonal – pelo menos deu sinal de vida. Verifico a lente e observo que o diafragma externo que cobre a lente está com meia abertura, dou uma batida com a mão e abre totalmente. Verifico no visor e parece estar normal. Desligo e ligo novamente, o diafragma novamente não abre totalmente, bato e abre. Tiro uma foto para testar, vejo que a foto ficou boa. Então parece que a máquina ressuscitou; apesar de trancar o diafragma, fico contente.

Sigo em frente, 10km até Curicó. Na primeira entrada da cidade, à direita, desisto, pois há uma casa de pedágio. Na segunda entro e o rapaz me fala que tenho que pagar 400 pesos para entrar com moto.

– Não tenho moeda chilena, pois estou entrando no seu país agora mesmo pelo passo El Planchón. Quero ir para o centro da cidade – argumento.

Acho que ele ainda não tinha passado por esta, porque não sabe o que fazer, ainda mais que dois automóveis já estão impacientes na fila atrás de mim. Se levantar a cancela eletrônica terá que pagar do próprio bolso.

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– Existem três entradas para a cidade, esta é a do meio, e todas possuem pedágio – ele me informa, e querendo se livrar de mim ordena passar pelo lado, entre obstáculos de concreto, e sigo em frente.

Depois fiquei sabendo que é cobrado pedágio na Pan-americana. Entregaram para uma empresa estrangeira, uma tal de Autopista Del Maipo. Colocaram cercas de tela soldada em todo o costado da rodovia de duas pistas. Cercaram o povo, que, para se deslocar para outros locais por esta rodovia, não paga quando sai, mas paga quando entra nas cidades. Em alguns lugares vejo a cerca cortada, um rombo por onde passa um pedestre, noutros, passa até um caminhão. Talvez feito por uns poucos chilenos revoltados com o engaiolamento nas cidades e nos pequenos povoados à beira da Pan-americana.

Encontro o Hotel Comercio, que um dos milicos da aduana chilena havia me recomendado por ser o mais barato da cidade e bom, 3 estrelas – pelo menos afixadas na parede ao lado da porta de entrada do hotel.

O recepcionista Fernando Astroza me dá o preço de 18 mil pesos a diária, em apartamento simples com banheiro e TV. Eles sempre falam também em “água caliente” como se fosse mordomia de outro mundo.

Eu, já estando acostumado com os preços na Argentina, praticamente igual ou menor do que no Brasil, e para regatear um pouco, digo a ele que para mim é caro, porque nossa moeda brasileira está desfavorável em relação ao peso chileno, com a cotação de 589 pesos chilenos para 1 dólar.

Ele concorda e abaixa o preço, anunciando 17.500 pesos, ao mesmo tempo em que o carregador de malas do hotel me informa que havia um motoqueiro (motociclista não faria isso) na minha moto pegando minhas luvas e que estava quase levando se não lhe chamasse a atenção. Ainda bem que retirei a máquina digital, conforme o “comandante” na aduana me recomendou.

Estou mal em Curicó, um roubando na frente e outro ao mesmo tempo nas costas, é difícil se defender. Como o sol já vai entrar, se ficar na rua vão me levar até a moto, então resolvo pernoitar por aqui mesmo, já que tem estacionamento interno para a moto.

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